Soropositiva morre em pronto-socorro de São Paulo após esperar mais de 48 horas por vaga numa UTI

Soropositiva morre em pronto-socorro de São Paulo após esperar mais de 48 horas por vaga numa UTI

A ONG Bem-Me-Quer entrou em luto na manhã desta quinta-feira (31), com a morte de uma de suas mais assíduas usuárias, Joana Souza*, de 52 anos. Joana frequentava a ONG desde 2001 e foi internada no último domingo (27), no Pronto-Socorro (PS) Municipal de Perus, zona norte de São Paulo. Ela morreu na noite de quarta-feira (30) à espera de um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e com grave quadro de insuficiência respiratória.

Joana era soropositiva e sofria de problemas renais. Ela decidiu ir ao hospital depois de uma indisposição, segundo Margarete Preto, do Bem-Me-Quer e do Foaesp (Fórum de Ongs/Aids do Estado de São Paulo). Já estava na unidade de saúde quando sofreu duas paradas cardiorrespiratórias e o quadro se agravou. “Os médicos solicitaram com urgência uma vaga na UTI, mas fomos informados, pela Central Reguladora de Vaga Municipal, que não havia vaga. Na segunda-feira (28) ela ainda estava na enfermaria do PS”, conta a ativista.

Ainda, segundo Margarete, dois voluntários da ONG foram até o hospital ver de perto o caso relatado pelos familiares de Joana. “Eles procuraram o assistente social da unidade e o mesmo entrou em contato com a central de vagas e constatou que ainda não havia lugar nas UTIs.”

Margarete decidiu, então, buscar ajuda no CRT (Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids). “Liguei no serviço e conversei com uma pessoa de nome Mara. Ela me explicou que, como a paciente estava num serviço municipal, a vaga teria de ser regulada pelo serviço do município.”

Margarete segue contando que ela e os colegas do Bem-Me-Quer entraram em contato com o Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo e com uma funcionária chamada Adalgiza, da Central de Regulação de Vagas Municipal. “Fui informada de que ainda não havia vaga.”

Na terça e na quarta-feira, a paciente continuou na emergência do PS de Perus, sem previsão de conseguir vagas. “Na noite de quarta, ela sofreu outras duas paradas cardíacas e não resistiu”, lamenta Margarete.

“Minha mãe estava muito inchada. Ela precisava fazer hemodiálise, mas os médicos disseram que ela não ia aguentar. Ela sofreu muito”, conta Suzana*, filha de Joana.

“O que me disseram é que ela não conseguiu vagas porque os hospitais estão lotados por conta da gripe H1N1e da dengue. Mas nós, pessoas com HIV, não podemos aceitar essa situação. Nossa amiga morreu pelo descaso público, por falta de assistência na cidade de São Paulo. Não temos leitos no estado e no município”, protesta Margarete.

A ativista ressalta que não é a primeira vez que acontece um caso desse e que a falta de leitos já dura a muito tempo “Muitas pessoas com HIV estão morrendo por isso. Já registramos mortes por falta de leitos em Araraquara, em Dracena e agora no quintal da nossa casa. O surto de dengue e gripe não é desculpa por falta de leitos, temos uma deficiência no sistema. Não adianta testar 90% da população sem ter estrutura para atender a todos. Estamos indignados com os serviços públicos de saúde.”

Manifestação do Foaesp

O Foaesp emitiu a seguinte nota de repúdio pela morte de Joana:

O Foaesp vem, por meio desta nota,  manifestar sua revolta e repúdio à falta de gerenciamento de leitos para internação, sob a administração da secretarias Estadual  e Municipal de Saúde de São Paulo.

Temos assistido a constantes problemas relacionados com pacientes crônicos, que recorrem às estas instituições em busca de cuidado e enfrentam a limitação causada pela burocracia e a falta de políticas públicas claras e sintonizadas.

A destinação de leitos a doenças crescentes como H1N1, dengue e outras, tem gerado dificuldades de internação, acomodação inadequada em enfermarias e, não raro, risco grave de óbito frente a esta realidade.

Constantemente temos visto casos deste tipo e, por intermédio de relatos e acompanhamentos de usuários das ONGs afiliadas ao Foaesp, presenciado esta triste realidade ainda sem solução, apesar das frequentes denúncias feitas aos órgãos de fiscalização e controle social.

Sendo “a saúde um direito de todos e um dever do Estado” causa repúdio a inoperância da gestão estadual e municipal que ameaça vidas na medida que faz ” escolhas” entre pacientes, se deixando levar por modismos de modelo de atenção, sobretudo os mais propagados pela mídia com interesses nem sempre claros.

O Foaesp acompanha atento esta grave situação e estuda fazer denúncias ao Ministério Público, aos órgãos de fiscalização e à sociedade em geral, cobrando ações coerentes com a carga de responsabilidade que os governantes assumiram.

Outro lado

A Agência de Notícias da Aids entrou em contato com as secretarias de Saúde do estado e do município.

A assessoria do Estado explicou que o município de São Paulo tem gestão plena em saúde e uma regulação de vagas própria. Disse também que não houve pedido de vaga para a paciente na Central de Regulação de Vagas do Estado.

Também por meio de sua assessoria, a Secretaria Municipal de Saúde nos enviou a seguinte resposta:

“A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) informa que a sra. Joana deu entrada no PSM Perus em 27/3. A paciente foi prontamente atendida e avaliada pela equipe médica, que diagnosticou um quadro de septicemia e problemas renais. No dia 28, houve piora do quadro clínico. A Central de Regulação do Município solicitou vaga de UTI com diálise para alguns hospitais estaduais e Santa Casa, sem retorno positivo. Os pedidos foram renovados nos dias 29 e 30. A paciente seguia com cuidados médicos intensivos, mas evoluiu a óbito às 18h12 do dia 30. Em nenhum momento a sra. Joana deixou de ser assistida.”

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

http://agenciaaids.com.br

Autor:

O Grupo Assistencial SOS VIDA nasceu legalmente em 28 de março de 1998 com o proposito de oferecer apoio e assistência a portadores do vírus HIV/AIDS. Após um ano, Padre Quinha pediu ao fundador que começasse a trabalhar também com Dependência Química. Passados dezesseis anos os atendimentos vão além destas duas patologias, a busca por diversos motivos fez com que a instituição abrisse o leque de atuação – Ir de Encontro com a Necessidade de Quem Nos Procura – que, em sua grande maioria, são pessoas de baixa renda. Os assistidos contam ainda, além dos atendimentos na sede da instituição, com o amparo de profissionais de saúde que atendem gratuitamente em seus consultórios e clínicas.

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