Congressos na Paraíba: Vitórias da luta brasileira contra aids e hepatites deram tom à cerimônia de abertura dos eventos, mas ativistas fazem críticas e realizam protestos

Congressos na Paraíba: Vitórias da luta brasileira contra aids e hepatites deram tom à cerimônia de abertura dos eventos, mas ativistas fazem críticas e realizam protestos

“Hashtag começou.” Com essas palavras, Fábio Mesquita, diretor do DDAHV (Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais) encerrou sua fala na abertura oficial dos 10º Congresso de HIV/Aids e do 3º Congresso Brasileiro de Hepatites Virais, na tarde desta terça-feira (17), no Centro de Convenções de João Pessoa, na Paraíba. O mais aplaudido das treze pessoas que compuseram a mesa da cerimônia, Fábio foi o primeiro a falar. Citou outra hashtag, a #partiuteste, que deu título à campanha de prevenção lançada no ano passado com foco na população jovem, considerada a mais vulnerável à infecção pelo HIV. “Foi a primeira campanha que durou um ano inteiro.”

A atenção ao público jovem apareceu em vários outros momentos do discurso de Fábio Mesquita. Ele contou que o DDAHV formou nesse ano 100 lideranças juvenis para atuarem na luta contra a aids. Anunciou que, logo mais, a OMS (Organização Mundial da Saúde) vai lançar novo protocolo de aids e citar o Brasil como referência  de política pública com a Tasp (tratamento antecipado). E que o tão esperado protocolo da PrEP (profilaxia pré-exposição)  sairá em 2016.

As hepatites virais, especialmente a C, com seus novos medicamentos, o sofosbuvir e o daclatasvir, também mereceram destaque na fala de Fábio Mesquita e de outros convidados, como o ministro da Saúde, Marcelo Castro. “Nós nos orgulhamos de ter concretizado em nossa gestão a incorporação dos novos antivirais para a hepatite C”, disse o ministro. Ele se referiu aos novos medicamentos como pílulas revolucionárias e inovadoras. Mas, antes, Marcelo Castro arrancou aplausos da plateia ao se referir a Fábio Mesquita como “o queridinho de vocês”.

O ministro disse que o desenvolvimento social no Brasil, nas últimas décadas,  levou a praticamente à extinção da hepatite A. Que a vacina contra a hepatite B também significou um avanço no combate à doença. “Saio daqui com o compromisso de fechar questão com pesquisadores em torno da hepatite Delta, característica da região da Amazônia e que terá destaque nesse evento”, continuou Castro.

Também presente na cerimônia, o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), disse que hoje há uma grande onda conservadora no Congresso Nacional, impedindo progressos na saúde. “Nenhum país avança erguendo muros. Ao invés de discutir maioridade penal, tínhamos de ter a coragem de discutir o subfinanciamento da saúde. Não temos dinheiro para fechar a conta da média e da alta complexidade. O SUS é uma conquista do povo e não podemos retroceder. Não aceitamos nenhum retrocesso dos direitos humanos.”

Direitos humanos e justiça social foram lembrados também por Georgiana Braga Orillard (foto direita), diretora do Unaids Brasil (Programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids). Ela citou que o Brasil é o país que mais assassina pessoas trans no mundo. “Isso é gravíssimo para o cenário da aids. Outra população vulnerável à epidemia, a de HSH [homens que fazem sexo com homens] também é muito discriminada. Em 2014, a cada uma hora um gay sofria violência no Brasil. E treze mulheres foram assassinadas por dia, em 2013,  dentro de suas casas, por seus companheiros, na maioria das vezes.”

Lembrando que só com respeito aos direitos humanos  é possível acelerar a resposta à aids,  Georgiana  afirmou que o fim da epidemia não é mais uma utopia e sim um compromisso. “Pela primeira vez, a ONU alcança,  antecipadamente, uma meta: a de 15 milhões de pessoas em tratamento no mundo. Em 2000, quando essa meta foi estabelecida, ela parecia um sonho.”

Roberta Abath, secretária de Estado da Saúde da Paraíba, fez uma fala poética, destacando o verde de João Pessoa e a capacidade de luta e resistência de seu povo ao desejar boas-vindas aos cerca de três mil participantes do congresso. Pediu a bênção de Deus e dos orixás para os longos dias de debates. “Sabemos que todos os avanços ainda são insuficientes e que a trajetória continua.”

Antônio Carlos Nardi, secretário de Vigilância em Saúde do governo, reconheceu a importância da sociedade civil. “Sem a militância de tantas pessoas, os avanços em aids e hepatites não teriam sido possíveis.” Nardi também destacou a dedicação dos profissionais de saúde e do ministro Marcelo Castro. “Apesar do difícil momento financeiro, o ministro fez questão de manter esse evento porque sabe da importância dessas discussões.”

Odorico Monteiro, da Frente Parlamentar Mista de Enfrentamento às  DST/Aids, anunciou que deste ano em diante, a exemplo do Outubro Rosa, dedicado ao câncer de mama, e do Novembro Azul, dedicado à saúde do homem, dezembro será o Dezembro Vermelho, de combate à aids, numa alusão ao laço vermelho, símbolo da doença.

O deputado Marcos Reátegui (PSC/AP) destacou que a erradicação das hepatites até 2030 é o grande desafio do Brasil.

Ainda compondo a mesa de abertura dos congressos na Paraíba, Júlio César Caetano falou como representante das pessoas que vivem com hepatites e Henrique Ávila, coordenador da Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids (foto esquerda), representou os soropositivos.

A cerimônia também contou com a entrega de prêmios, em forma de placas comemorativas, a pessoas que se destacaram na luta contra a aids ao longo dos anos. Valéria Petri foi reconhecida como a médica que identificou o Sarcoma de Kapossi como um sintoma do HIV. Euclides Ayres de Castilho, do Departamento de Medicina Preventiva da USP, Ivo Brito, assessor do DDAHV, Jeová Pessini Fragoso, do Grupo Esperança, Lurdes Barreto, do Movimento de profissionais do sexo e  Ieda Fornazier, secretária-executiva da diretoria, estavam entre os homenageados.

Outra atração do evento de abertura dos congressos foi a apresentação dos alunos do Projeto de Inclusão Social através da Música e das Artes (Prima), formada por adolescentes e jovens da Paraíba.  Além de se apresentarem no local pela primeira vez, os alunos do Prima experimentaram  outra grande novidade: a estreia da Orquestra Prima Oriental. A formação faz parte de mais uma inovação pedagógica do projeto, que conta com cerca de 1,5 mil inscritos.

Ativistas fazem manifestação com palavras de ordem antes da abertura dos congressos

Integrantes de diversas ONGs representando diferentes estados de todo o país realizaram uma sonora manifestação antes da cerimônia que marcou a abertura dos congressos. Segurando cartazes e entoando palavras de ordem como: “Hepatite tem cura, tratamento sem censura! O Brasil não tem progresso só vejo retrocesso. Tenho aids, tenho pressa, saúde é o que interessa. Saúde agora, patentes fora. A nossa luta é todo o dia, saúde não é mercadoria!”.

Eles se reuniram no hall de entrada do Teatro A Pedra do Reino, seguiram em passeata, subiram no palco, mostraram os cartazes e tornaram públicas suas reivindicações.

“A manifestação teve como proposta mostrar que no Brasil milhares de pessoas continuam se infectando com o vírus HIV. Cerca de 12 mil pessoas morrem em decorrência da aids por ano. Temos  enormes desafios na prevenção, principalmente com populações chaves e DSTs que estão esquecidas nesta gestão. Na assistência, há o enorme desafio no acolhimento da adesão,  em alguns estados estamos com epidemias generalizadas. Estamos atrasados no enfrentamento destes casos, mas não deveriam deixar chegar a este ponto. Enfim, vivemos uma crise sem precedentes na resposta da epidemia e precisávamos mostrar nossa indignação”, disse Rodrigo Pinheiro, presidente do Foaesp (Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo).

Segundo nota publicada no site da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), o ato público também é uma defesa do tratamento da hepatite C para todos no Brasil e uma severa crítica aos preços desse tratamento.

Os manifestantes foram aplaudidos por cerca de três mil pessoas que participam dos congressos em João Pessoa (PB).

Redação da Agência de Notícias da Aids http://agenciaaids.com.br/ 

Autor:

O Grupo Assistencial SOS VIDA nasceu legalmente em 28 de março de 1998 com o proposito de oferecer apoio e assistência a portadores do vírus HIV/AIDS. Após um ano, Padre Quinha pediu ao fundador que começasse a trabalhar também com Dependência Química. Passados dezesseis anos os atendimentos vão além destas duas patologias, a busca por diversos motivos fez com que a instituição abrisse o leque de atuação – Ir de Encontro com a Necessidade de Quem Nos Procura – que, em sua grande maioria, são pessoas de baixa renda. Os assistidos contam ainda, além dos atendimentos na sede da instituição, com o amparo de profissionais de saúde que atendem gratuitamente em seus consultórios e clínicas.

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