Aids: entre a ousadia e o retrocesso – PEDRO CHEQUER, PAULO TEIXEIRA E ALEXANDRE GRANGEIRO

PEDRO CHEQUERDN ALEXANDRE GRANGEIRO DN PAULO TEIXEIRA

Aids: entre a ousadia e o retrocesso

http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,aids-entre-a-ousadia-e-o-retrocesso-,1041526,0.htm
Posição governamental aponta para uma mudança de caminho, afastando-se da experiência bem-sucedida e do conhecimento técnico

PEDRO CHEQUER, PAULO TEIXEIRA E ALEXANDRE GRANGEIRO (*)

O Estado de S. Paulo 12/06/2013

Os vetos do Planalto e do Ministério da Saúde a campanhas de aids e material educativo escolar ressuscitam uma polêmica superada há décadas: a de que é possível controlar a epidemia sem quebrar tabus e enfrentar preconceitos. A experiência mundial mostra que, quando as ações não tiveram por base os direitos humanos, a evidência científica, a garantia do acesso universal à saúde e a priorização de grupos sociais mais atingidos, a epidemia cresceu, mais pessoas morreram e os custos com a saúde aumentaram.

É um engano achar que a epidemia de aids é causada somente por um vírus e bastam informações para que todos adotem medidas de prevenção. A epidemia é bem mais complexa. Já na década de 1980, a Organização Mundial de Saúde alertava que o preconceito, a discriminação e as desigualdades sociais eram as principais causas do alastramento da doença no mundo. São eles que impedem mulheres de negociar o uso de preservativo, os homossexuais de exercer sua sexualidade de forma segura e as prostitutas de enfrentar as situações de violência que as expõem com maior intensidade ao HIV.

Foi com base nesse entendimento, na capacidade de estabelecer diálogos francos com a sociedade e na adoção incondicionada do princípio constitucional da laicidade que a política de aids avançou nesses 30 anos. E não foram poucas as conquistas. Há mais de 20 anos, as primeiras campanhas sobre o preservativo foram assistidas pelas famílias brasileiras no horário nobre, as primeiras seringas foram distribuídas aos usuários de drogas e as primeiras aulas sobre sexualidade e aids foram ministradas em escolas. E por que não se lembrar da ousadia de enfrentar o lobby da indústria e adotar a licença compulsória de medicamentos antirretrovirais?

Agora, a posição governamental aponta para uma perigosa mudança de caminho, afastando-se da experiência bem-sucedida e do conhecimento técnico. Abre-se assim a possibilidade real de um agravamento da epidemia no País. A censura à campanha para homossexuais no carnaval de 2012 deixou de abordar o segmento mais atingido pela doença no País, com taxas de infecção 11 vezes superiores à da população geral. A proibição do uso de material educativo escolar endossado pela Unesco e Unaids, no início deste ano, poderá contribuir para criar uma geração inábil para lidar com a prevenção da aids. E a recente censura à campanha dirigida a prostitutas deixa no limbo um grupo que representa entre 10% e 15% das mulheres infectadas pelo HIV no País. Mais do que isso, essa censura sinaliza para a sociedade a intolerância com o exercício da prostituição, aumentando a marginalização e as situações de violência contra esse segmento. As consequências serão negativas para toda a sociedade, incluindo os clientes e companheiras e mulheres dos clientes.

Isso ocorre em um momento em que a aids dá sinais de que volta a crescer no País, uma situação que contrasta com o cenário internacional. As Nações Unidas, em seu último relatório, chamaram a atenção para o fato de que tecnologias altamente efetivas e disponíveis podem levar ao fim da epidemia ainda nesta década.

Diante disso, o Ministério da Saúde deverá decidir de que lado estará. Um programa de aids influenciado por um lobby conservador e interesses políticos terá pouca chance de sucesso e representará uma ruptura com as experiências bem-sucedidas e com a sociedade brasileira.

(*) FORAM DIRETORES DO PROGRAMA NACIONAL DE AIDS EM DIFERENTES PERÍODOS ENTRE 1996 E 2006.

Autor:

O Grupo Assistencial SOS VIDA nasceu legalmente em 28 de março de 1998 com o proposito de oferecer apoio e assistência a portadores do vírus HIV/AIDS. Após um ano, Padre Quinha pediu ao fundador que começasse a trabalhar também com Dependência Química. Passados dezesseis anos os atendimentos vão além destas duas patologias, a busca por diversos motivos fez com que a instituição abrisse o leque de atuação – Ir de Encontro com a Necessidade de Quem Nos Procura – que, em sua grande maioria, são pessoas de baixa renda. Os assistidos contam ainda, além dos atendimentos na sede da instituição, com o amparo de profissionais de saúde que atendem gratuitamente em seus consultórios e clínicas.

Um comentário em “Aids: entre a ousadia e o retrocesso – PEDRO CHEQUER, PAULO TEIXEIRA E ALEXANDRE GRANGEIRO

  1. Saudades dos tempos em que estes três crânios da saúde publica do Brasil estavam a frente do programa nacional de aids do MS. Agora o que temos? Pau mandados que não tem nenhuma gerencia ou diferença, pois,são submissos a bancada religiosa. Covardes que nao respeitam e nem proporcionam mais o dialogo entre a sociedade civil por que não tem moral pra olhar em nossos olhos.

    Nós pessoas vivendo com aids de todo Brasil, vivemos um momento muito critico pelo descaso, principalmente do governo Dilma, no que diz respeito à assistência , prevenção e controle as DST/Aids e Tuberculose.

    As politicas publicas de aids, bem sucedidas e conquistadas pela pressão do Movimento social de luta contra a aids do Brasil, nos anos 90 e 2000, passaram a ser moeda de troca politica deste governo, que não é LAICO, e que está submisso a Bancada Religiosa do congresso. Esta bancada está mandando e o governo obedecendo. Há dois anos este governo vem vetando campanhas, dificultando o acesso da sociedade civil em se reunir e participar das decisões governamentais e etc…

    PRECISAMOS DAR UMA RESPOSTA NAS URNAS A ESTE GOVERNO DITADOR E PRECONCEITUOSO.

    Vai pra casa Dilma e Padilha.

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