Número de infecções pelo HIV entre idosos mais que dobrou entre 1998 e 2008, informa Folha de S. Paulo

Número de infecções pelo HIV entre idosos mais que dobrou entre 1998 e 2008, informa Folha de S. Paulo

     
 www.agenciaaids.com.br

03/07/2011 – 10h15

O jornal Folha de S.Paulo trouxe neste domingo uma reportagem sobre o aumento da aids na terceira idade. Sem o conhecimento e sem a prática do uso do preservativo, a população acima dos 60 anos se tornou mais vulnerável à infecção do HIV. Leia a seguir o texto na íntegra:

Avôs e avós fazem sexo, sim. E, sem proteção, também pegam aids. De 1998 a 2008, os casos da doença entre pessoas acima de 60 anos no Brasil mais que dobraram, segundo dados de 2010 do Ministério da Saúde.

A via predominante de transmissão é por relação sexual heterossexual, em ambos os sexos.

Embora o número absoluto de casos ainda seja pequeno em comparação com outras faixas etárias, o ritmo de crescimento da doença entre os idosos é preocupante, afirma Eduardo Barbosa, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.

Sem o hábito – e, muitas vezes, sem o conhecimento – de usar preservativos, esse grupo se expõe mais ao risco de contrair o vírus HIV, de acordo com Barbosa.

“É difícil de mudar a mentalidade dessa população. Eles ainda encaram o sexo com camisinha como chupar bala com papel.”

Além disso, para as mulheres o preservativo sempre esteve associado a um método contraceptivo. Como não estão mais em idade reprodutiva, não veem por que usá-lo.

Vida sexual ativa

O preconceito a respeito da vida sexual dessa população também dificulta a proteção.

“Ninguém de nós vê nossos avós como sexualmente ativos, e isso dificulta o diagnóstico e o acesso à prevenção”, diz Barbosa.

Os idosos têm ainda a ideia de que a aids é uma doença de jovens e que estão à margem do risco, segundo o infectologista do hospital Emílio Ribas Jean Gorinchteyn, autor do livro “Sexo e aids depois dos 50”.

Números da aids na terceira idade

628 casos de aids entre pessoas com 60 anos ou mais em 1998

1441 casos da doença nessa faixa etária em 2008
Isso significa um aumento de 129%. Para comparação, os casos entre pessoas entre 35 e 39 anos aumentou 16% no mesmo período

O problema em números

Taxa de incidência de casos de aids por 100 mil habitantes em 2008

20 a 24 anos – 15

25 a 29 – 31,6

30 a 34 – 42,8

35 a 39 – 46,1

40 a 49 – 39,3

50 a 59 – 24,8

60 e mais – 7,7

Fonte: Boletim Epidemiológico DTS/AIDS 2010 do Ministério da Saúde

DEPOIMENTO MARIA, 65

Peguei o vírus em 1988 após uma transfusão de sangue

Mas só descobri no ano 2000, quando fiquei muito debilitada. Entrei em depressão quando soube e só chorava. Não era isso que eu queria para minha vida, não imaginava que isso poderia acontecer com quase 50 anos.

Comecei a frequentar a ONG Pela Vidda. Aí que fui me sentir melhor, vi que esse já não era mais o problema mais sério da minha vida e comecei a me sentir melhor.

Mas ainda tenho medo de que alguém me olhe e diga que não sou igual; existe preconceito. Viver com aids tem suas dificuldades. Você se acha forte e no fundo aquilo incomoda. Mas dá pra viver, e eu vivo bem.

Na minha família, graças a Deus, não tive rejeição. Fui muito acolhida pelos meus filhos e netos. Eles dizem que não sou a primeira nem vou ser a última a pegar o vírus.

As pessoas acham que com o coquetel não tem mais risco. Mas ele não cura, só traz mais qualidade de vida.

Por isso as pessoas não podem se descuidar. A pessoa mais idosa tem costume diferente. Os homens acham que, com camisinha, não vão funcionar mais! E as mulheres aceitam não usar.

Os idosos acham que é doença de jovem ou de quem se prostitui, mas todo mundo hoje é grupo de risco.

Para a pessoa de idade, descobrir que tem aids é triste e vergonhoso. No começo foi assim comigo. A gente pensa como os outros vão olhar pra gente.

DEPOIMENTO ROSA, 77

Digo para terem cuidado com o vírus, mas não conto que tenho

Meu marido me deixou quando eu tinha 35 anos e eu fiquei sem saber como me virar. Ele me batia e eu sofria muito. Na minha época, mulher não podia se separar.

Quando eu tinha uns 57 anos, me casei de novo. Conheci ele num baile da terceira idade. Depois de seis meses ele ficou doente e logo depois morreu.

Comecei a emagrecer muito e fui ao médico. Foi assim que eu descobri que ele tinha o vírus e tinha me passado.

Quando o médico trouxe o resultado do exame, meu filho caiu pra trás. Tive que acalmá-lo, e acalmei minha filha também, que só chorava. Eu não me abalei, não sei por quê. Disse: “Imagina, não vou morrer disso não, vou matar esses bichos todos!”. Na época, falavam que a doença não tinha cura e matava em poucos meses. Tomo os remédios [antirretrovirais] desde aquela época.

Eu falo paras minhas amigas se cuidarem. Os velhos estão mais sem-vergonha do que os moços! Todo mundo tem que usar camisinha, não pode cair na tentação. Os homens da terceira idade pegam a doença e depois passam para as mulheres.

A gente pensa que não vai acontecer com a gente e muitas vezes a doença está bem perto. Quem diria que meu segundo marido tinha isso, uma pessoa de boa índole. Ninguém traz estampado na cara que tem HIV.

Hoje vou aos bailes e falo para as velhinhas tomarem cuidado, mas não conto que tenho o vírus.

Fonte: Folha de S. Paulo

Autor:

O Grupo Assistencial SOS VIDA nasceu legalmente em 28 de março de 1998 com o proposito de oferecer apoio e assistência a portadores do vírus HIV/AIDS. Após um ano, Padre Quinha pediu ao fundador que começasse a trabalhar também com Dependência Química. Passados dezesseis anos os atendimentos vão além destas duas patologias, a busca por diversos motivos fez com que a instituição abrisse o leque de atuação – Ir de Encontro com a Necessidade de Quem Nos Procura – que, em sua grande maioria, são pessoas de baixa renda. Os assistidos contam ainda, além dos atendimentos na sede da instituição, com o amparo de profissionais de saúde que atendem gratuitamente em seus consultórios e clínicas.

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