Eu não gostava do Papa João Paulo II – Arnaldo Jabor

Eu não gostava do Papa João Paulo II
Publicado no Jornal “O Estado de São Paulo” de 05/04/2005, terça feira

…Escrevo enquanto vejo a morte do Papa na TV. E me espanto com a imensa emoção mundial. Espanto-me também comigo mesmo: “Como eu estou sozinho!” — pensei.
Percebi que tinha de saber mais sobre mim, eu, sozinho, sem fé alguma, no meio desse oceano de pessoas rezando no Ocidente e Oriente. Meu pai, engenheiro e militar, me passou dois ensinamentos: ele era ateu e torcia pelo América Futebol Clube. Claro que segui seus passos. Fui América até os 12 anos, quando “virei casaca” para o Flamengo (mas até hoje tenho saudade da camisa vermelha, garibaldina, do time de João Cabral e Lamartine Babo) e parei de acreditar em Deus.

Sei que “de mortuis nihil nisi bonum” (“não se fala mal de morto”), mas devo confessar que nunca gostei desse Papa. Por quê? Não sei. É que sempre achei, nos meus traumas juvenis, que Papa era uma coisa meio inútil, pois só dava opiniões genéricas sobre a insânia do mundo, condenando a “maldade” e pedindo uma “paz” impossível, no meio da sujeira política.
Quando João Paulo entrou, eu era jovem e implicava com tudo. Eu achava vigarice aquele negócio de fingir que ele falava todas as línguas. Que papo era esse do Papa? Lendo frases escritas em partituras fonéticas… Quando ele começou a beijar o chão dos países visitados, impliquei mais ainda. Que demagogia! — reinando na corte do Vaticano e bancando o humilde…
Um dia, o Papa foi alvejado no meio da Praça de São Pedro, por aquele maluco islâmico, prenúncio dos tempos atuais. Eu tenho a teoria de que aquele tiro, aquela bala terrorista despertou-o para a realidade do mundo. E o Papa sentiu no corpo a desgraça política do tempo. Acho que a bala mudou o Papa. Mas fiquei irritadíssimo quando ele, depois de curado, foi à prisão “perdoar” o cara que quis matá-lo. Não gostei de sua “infinita bondade” com um canalha boçal. Achei falso seu perdão que, na verdade, humilhava o terrorista babaca, como uma vingança doce.
E fui por aí, observando esse Papa sem muita atenção. É tão fácil desprezar alguém, ideologicamente… Quando vi que ele era “reacionário” em questões como camisinha, pílula e contra os arroubos da Igreja da Libertação, aí não pensei mais nele…Tive apenas uma admiração passageira por sua adesão ao Solidariedade do Walesa mas, como bom “materialista”, desvalorizei o movimento polonês como “idealista”, com um Walesa meio “pelego”. E o tempo passou.
Depois da euforia inicial dos anos 90, vi que aquela esperança de entendimento político no mundo, capitaneado pelo Gorbatchev, fracassaria. Entendi isso quando vi o papai Bush falando no Kremlin, humilhando o Gorba, considerando-se “vitorioso”, prenunciando as nuvens negras de hoje com seu filhinho no poder. Senti que o sonho de entendimento socialismo-capitalismo ia ser apenas o triunfo triste dos neo-conservadores. O mundo foi piorando e o Papa viajando, beijando pés, cantando com Roberto Carlos no Rio. Uma vez, ele declarou: “A Igreja Católica não é uma democracia”. Fiquei horrorizado naquela época liberalizante e não liguei mais para o Papa “de direita”.

Depois, o Papa ficou doente, há dez anos. E eu olhava cruelmente seus tremores, sua corcova crescente e, sem compaixão alguma, pensava que o Pontífice não queria “largar o osso” e ria, como um anticristo.
Até que, nos últimos dias, João Paulo II chegou à janela do Vaticano, tentou falar… e num esgar dolorido, trágico, foi fotografado em close, com a boca aberta, desesperado.
Essa foto é um marco, um símbolo forte, quase como as torres caindo em NY. Parece um prenúncio do Juízo final, um rosto do Apocalipse, a cara de nossa época. É aterrorizante ver o desespero do homem de Deus, do Infalível, do embaixador de Cristo. Naquele momento, Deus virou homem. E, subitamente, entendi alguma coisa maior que sempre me escapara: aquele rosto retorcido era o choro de uma criança, um rosto infantil em prantos! O Papa tinha voltado a seu nascimento e sua vida se fechava. Ali estava o menino pobre , ex-ator, ex-operário, ali estavam as vítimas da guerra, os atacados pelo terror, ali estava sua imensa solidão igual à nossa.

Então, ele morreu. E ontem, vendo os milhões chorando pelo mundo, vendo a praça cheia, entendi de repente sua obra, sua imensa importância. Vendo a cobertura da Globo, montando sua vida inteira, seus milhões de quilômetros viajados, da África às favelas do Nordeste, entendi o Papa. Emocionado, senti minha intensíssima solidão de ateu. Eu estava fora daquelas multidões imensas, eu não tinha nem a velha ideologia esfacelada, nem uma religião para crer, eu era um filho abandonado do racionalismo francês, eu era um órfão de pai e mãe. Aí, quem tremeu fui eu, com olhos cheios d’água. E vi que Karol Wojtyla, tachado superficialmente de “conservador”, tinha sido muito mais que isso. Ele tinha batido em dois cravos: satisfez a reacionaríssima Cúria Romana implacável e cortesã e, além disso, botou o pé no mundo, fazendo o que italiano algum faria: rezar missa para negões na África e no Nordeste, levando seu corpo vivo como símbolo de uma espiritualidade perdida. O conjunto de sua obra foi muito além de ser contra ou a favor da camisinha. Papa não é para ficar discutindo questões episódicas. É muito mais que isso. Visitou o Chile de Pinochet e o Iraque de Saddam e, ao contrário de ser uma “adesão alienada”, foi uma crítica muito mais alta, mostrando-se acima de sórdidas políticas seculares, levando consigo o Espírito, a ideia de Transcendência acima do mercantilismo e ditaduras. E foi tão “moderno” que usou a “mídia” sim, muito bem, como Madonna ou Pelé.

E nisso, criticou a Cúria por tabela, pois nenhum cardeal sairia do conforto dos palácios para beijar pé de mendigo na América Latina. João Paulo cumpriu seu destino de filósofo acima do mundo, que tanto precisa de grandeza e solidariedade.
Sou ateu, sozinho, condenado a não ter fé, mas vi que se há alguma coisa de que precisamos hoje é de uma nova ética, de um pensamento transcendental, de uma espiritualidade perdida. João Paulo na verdade deu um show de bola.

Arnaldo Jabor

Autor:

O Grupo Assistencial SOS VIDA nasceu legalmente em 28 de março de 1998 com o proposito de oferecer apoio e assistência a portadores do vírus HIV/AIDS. Após um ano, Padre Quinha pediu ao fundador que começasse a trabalhar também com Dependência Química. Passados dezesseis anos os atendimentos vão além destas duas patologias, a busca por diversos motivos fez com que a instituição abrisse o leque de atuação – Ir de Encontro com a Necessidade de Quem Nos Procura – que, em sua grande maioria, são pessoas de baixa renda. Os assistidos contam ainda, além dos atendimentos na sede da instituição, com o amparo de profissionais de saúde que atendem gratuitamente em seus consultórios e clínicas.

15 comentários em “Eu não gostava do Papa João Paulo II – Arnaldo Jabor

  1. Obrigado por essa excelente obra literária. Ela só faz com que entendamos a imensa obra realizada por esse homem de Deus.
    Parabéns

    1. agradecemos o contato e carinho, tentamos oferecer o melhor a quem nos procura, seja virtual ou pessoalmente,
      abçs. fraternos….
      a benção João de Deus….

  2. Só queria que o Arnaldo soubesse que essa dura realidade que ele vive ainda pode mudar, que ele nao está condenado a viver sozinho, mto menos a não ter fé! Deus o espera de braços abertos!!!

  3. Não é sem motivos que foi beatificado, e que pedir sua intercessão faz o encardido correr!! Ele foi sim homem, sacerdote, Catequista, pai e mae de muitos e Santo… O Santo dos Jovens!
    E você amado irmão, não esta condenado a nada, esta se condenando! E não tem este direito, por que nem Deus te condena Ele só sabe é te amar e te esperar, e esta lá presente na Hóstia Santa o esperando! Se entregando de amor por você a cada Eucaristia Celebrada!

    1. muito interessante sim esta reflexão do Jabor, inegavelmente João Paulo foi uma pessoa iluminada e cumpriu muito bem sua missão…sempre foi e sera sim um santo…

  4. Muito emocionante seu contato direto com JESUS atraves do Papa, e assim são milhões de pessoas se convertendo espero e rezo tbm por sua conversão e tbm a minha diária. Paz e Bem.

  5. Obrigada por este testemunho que descreveu de uma maneira tão emocionante! pensa que é ateu mas quem assim escreve algo de maravilhoso terá dentro de si! O AMOR! os últimos momentos do Papa João Paulo II eu também os assisti e vivi-os com muita emoção, mesmo tendo passado tantos anos, não consigo pensar neles sem me comover! o chegar a janela e não conseguir articular nenhum som……! por causa do testemunho e da Fé do Papa João Paulo II, eu me converti ao Catolecismo. Que a Luz de Jesus Ilumine os seus passos

  6. Concordo com um comentário acima. “o senhor não está condenado a nada”. Busque a fé e ela lhe aparecerá. A porta do nosso coração só abre do lado de dentro. Creio e torço para que o senhor ainda se cure desse ateísmo herdado e aceite Jesus na sua vida.
    A nova ética de que o senhor fala no final do texto, por estranho que pareça é uma postura que tem a ver com fé, amor (a Deus e aos irmãos). Para que um ateu precisaria ser ético??
    Impor-se auto-limitações sem sentido?? Quando se acredita em Deus, com seriedade, a ética, por si só, já se faz presente.
    Jorge.

  7. Por isso eu rezo sempre e nunca desisto, ele foi uma grande lição de vida para muitos, inclusive cristãos!!!

  8. nós católicos acreditamos que o PAPA é um representante de CRISTO sendo assim todos enclusive os que o que não simpatizam com ele pode ter certeza que ´la do céu ele olha por você .!!!Porque ELE nos ama!!!!!!!

  9. Bobo, vc demorou tanto pra ver e nao teve tempo de aproveitar a Sua Santidade junto de nos pobres mortais. Esteve por aqui, no meio do povo, era o Santo Padre!!! Eu aproveitei, me emocionei muitas vezes so em ve-lo na tv. Amei-o desde o momento que o conheci ate a hora da sua morte, e hj sou feliz por ele estar muito melhor que nos. Salve Joao de DEUS!!!

  10. Lindo testemunho de um ateu,que para mim,apartir de agora acho que o nosso bom Deus,ouviu o seu lamento Arnaldo Jabor e certamente te dará a oportunidade de conversão ao seu projeto de amor e justiça,rezarei por sua conversão!

  11. Foi providência de Deus você ter assistido e acompanhado os passos do Beato João Paulo II porque através do testemunho desse homem Santo você teve uma experiência com Deus… e pode ter certeza que la do céu ele estará sempre intercedendo por vc junto a Jesus… um grande abraço fique com Deus

  12. A honestidade intelectual, a consciência de Jabor neste artigo, nos da um recado muito simples: – podemos confiar na humanidade, cada um tem seu caminho e seu tempo,
    porisso ninguém tem o direito de julgar o outro. Obrigado A. Jabor

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