Aids: ”Não adianta ficar jogando folhetos”- LÍGIA KERR – A médica paulista Lígia Kerr, da Universidade Federal do Ceará, mostra novas e surpreendentes faces da doença

LÍGIA KERR

Aids: ”Não adianta ficar jogando folhetos”

A médica paulista Lígia Kerr, da Universidade Federal do Ceará, mostra novas e surpreendentes faces da doença

Adriano De Lavor da Redação

Uma faceta até então pouco visível e bastante incômoda da Aids no Brasil: a doença tem garantido acesso de pobres à cidadania. Uma realidade chocante trazida à tona pela médica sanitarista Lígia Regina Sansigolo Kerr-Pontes. Há duas décadas na lida com a realidade da Aids, ela conta que tem ouvido de vários portadores que tornaram gente depois de contrair a doença. ”A gente tem trabalhado com a população que tem Aids. E vários deles dizem que a vida está melhor. E você se pergunta: como é que pode alguém que estar com uma doença fatal dizer que a vida dela melhorou? O que representa isso? Pessoas que não eram nada na sociedade, a partir do momento que passaram a ter Aids, começaram a ter acesso a uma série de serviços que nunca tiveram na vida. Isto é um sinal da gravidade social em que o País se encontra”.

A declaração da médica mostra uma realidade cruel. Doutora em Medicina Preventiva pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutora em Epidemiologia pela Harvard School of Public Health, esta paulista de Piracicaba trabalha com Aids desde 1985, tendo coordenado o programa regional de combate à doença em Ribeirão Preto. No Ceará desde 1991, ela exerce a chefia do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará e é professora adjunta de Epidemiologia da Faculdade de Medicina.

Nesta entrevista, Lígia Kerr revela a estreita relação entre a pobreza e o aumento de casos de infecção pelo HIV, demonstra a preocupação diante do avanço da epidemia entre as mulheres e chama a atenção para a necessidade de, nas campanhas de prevenção, passar a se considerar toda subjetividade que cerca a doença: ”Não adianta eu querer ditar regras e normas para esta população se eu não conhecer sua realidade. E que esta população descubra, ela mesma, formas de lidar com a Aids”, diz, ressaltando, ainda, a importância da participação da sociedade civil na construção do Programa Nacional de Aids.

O POVO – Em que pé está a pesquisa feita em parceria entre Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (GAPA-CE), Secretaria da Saúde e Faculdade de Medicina sobre atitudes, crenças e comportamento sexual entre homens que fazem sexo com outros homens?

Lígia Kerr – A pesquisa foi em 95 e 98 só em Fortaleza. Em 2002, outras cidades do Interior também foram alcançadas. Sobral, Juazeiro e Barbalha. E é, agora, o projeto de doutorado do presidente do GAPA, Rogério Gondim, na UERJ, compara com o que aconteceu em Fortaleza. A gente viu que um comportamento que era de risco, medido através do não uso de camisinha, em 95, baixou em 98 após uma série de intervenções, principalmente através de ONGs e Secretaria da Saúde. E, em 2002, ele voltou a aumentar. Isto mostra como a situação dos comportamentos humanos é complexa. É uma necessidade de trabalho contínuo, de envolver as pessoas. Houve uma mudança de 98 para 2002 e o GAPA reconhece que houve uma mudança de como trabalhar a população. Então partiu-se muito para revistas e outras estratégias. Um enfoque que talvez tenha pegado mais uma determinada classe social. E mesmo esta classe social foi atingida de uma forma diferenciada. Porque, ao invés de reduzir o comportamento de risco, ela aumentou esta prática.

OP – A senhora acredita que o fato de o Brasil ter alcançado um reconhecimento internacional de que as pessoas podem se tratar regularmente da Aids pode ter feito com que as pessoas relaxassem na prevenção?

LK – Esta hipótese é muito levantada nos Estados Unidos e outros países desenvolvidos. Eles dizem que, por conta do aparecimento do coquetel, as pessoas teriam relaxado. No Brasil, várias pesquisas mostram que isto não tem sido determinante, o que mostra como é complexo o comportamento do ser humano, o quanto as coisas mudam no tempo, o quanto os grupos têm que ser acompanhados. Uma coisa que se observa, por exemplo, e que era uma crítica das ONGs, é de que o Governo havia relaxado nas campanhas preventivas entre essa população específica. Os números foram caindo. Aumentou a transmissão de homem para mulher. Então as ONGs passaram muitos anos acusando isso. Agora retomaram as pesquisas. Nós fazemos parte de um programa nacional que vai investigar as doenças sexualmente transmissíveis, entre elas a Aids, entre os homens que fazem sexo com homens (HSH). Foram escolhidas várias cidades do Sul, Sudeste e aqui no Nordeste foram escolhidas Fortaleza, Salvador e Recife. A idéia é depois expandir para outras capitais importantes do País.

OP – Os pesquisadores de Comunicação e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) defendem que o modelo de prevenção, de certa forma, passa por um momento de crise, porque ainda insiste muito em um modelo normativo. Não estuda as características de grupo de cada uma das populações que vai ser trabalhada. A senhora acredita que o discurso de prevenção tem que mudar?

LK – Com certeza isto é uma questão seriíssima. Por exemplo: a gente trabalhou alguns anos atrás com homens que migraram do Interior para a periferia, particularmente nos bairros compreendidos nas Regionais V e VI, as mais pobres e carentes onde estas populações se aglomeram. A pesquisa mostrou que a questão da subjetividade é gravíssima. As pessoas, por critérios absolutamente subjetivos e delas, elegem através da roupa com que a mulher está vestida, o jeito, a aparência de limpa… Alguns homens dizem assim: ”Tem algumas mulheres que você pode ir, que é limpeza”. Eles acham que não correm nenhum risco, porque na cabeça deles estas características femininas são uma segurança. O próximo passo desta pesquisa foi investigar: estas populações foram atendidas por quem? Pelo Programa Saúde da Família, principalmente. Então, vamos trabalhar com os médicos do PSF. Como eles vêem esta questão da homossexualidade. Para saber se eles estão preparados para atuar junto a esta população de forma mais específica. Não adianta eu querer ditar regras e normas para esta população se eu não conhecer sua realidade. E que esta população descubra, ela mesma, formas de lidar com a Aids. Como é que ela vai lidar com os riscos da Aids diante da maneira como ela vive e se organiza. Quando a gente fez a pesquisa com os profissionais do PSF descobrimos que eles pensam praticamente da mesma forma que esta população. Eles têm os mesmos conceitos, as mesmas percepções. Não usam preservativos quase da mesma forma. As crenças são as mesmas desta população. Eles próprios têm de ser trabalhados. A partir daí está sendo feito um plano piloto em uma unidade do município para ser trabalhado junto com a Universidade Federal do Ceará. O pessoal da área de educação está trabalhando com os profissionais do PSF para ver se conseguem que eles mudem sua forma de ver a cultura. Ele não pode ensinar uma norma se ele não mesmo não segue. Como ele vai pregar isto?

OP – Às vezes se tem a sensação que se deixou de lado um discurso de prevenção para se fazer um discurso publicitário do uso da camisinha. A senhora concorda com isto?

LK – É claro que você não pode deixar de apregoar o uso do preservativo e a gente percebe que grande parte da população tem este conhecimento. O que não faz com que ela mude este comportamento. Ter conhecimento não é sinônimo de mudança comportamental. Tem muitas outras coisas por trás disto. Questões subjetivas, de imaginário, o que está na cabeça da pessoa. Como mudar a cabeça da pessoa e dizer que os critérios que ela está usando não são válidos para decidir usar ou não preservativo? Então estas questões são extremamente complexas e você não pode trabalhar com campanhas publicitárias de simplesmente espalhar outdoors na cidade ”Use Preservativo”.

OP – Nesta mesma linha de raciocínio, como a senhora avalia as campanhas governamentais?

LK – As campanhas em geral são bastante criticadas por este lado enviesado. De que passa a informação, bombardeia a população. E quando você pára de bombardear, em geral tende a diminuir novamente o uso. E não adianta você ficar repetindo use, use, use, quando ela não tem esta concepção. Se na cabeça dela determinada situação não representa risco, ela não vai usar.

OP – Existe, de certa forma, uma guerra simbólica entre discursos de ONGs, Governo, área científica e do setor religioso, que interfere bastante. Este discurso atrapalha o andamento de um trabalho?

LK – Todas as instituições estão envolvidas. Por exemplo, vem a questão religiosa que hoje é de extrema importância e que você não pode deixar de dar. Hoje há um grande estudioso na Paraíba, o Eymard Mourão Vasconcelos, que está levantando o papel da religião. Quem somos nós, cientistas ou pesquisadores, para dizer que a religião massacra, que ela fecha o pensamento? São formas que diferentes setores da sociedade estão encontrando para explicar suas vidas, para achar consolo para momentos extremamente difíceis. Quer dizer: somos nós que podemos dizer ”este ponto de vista está errado”?. Eu vou lá, quebro as regras e acabou. Então, muitos estudos hoje estão mostrando que nas sociedades em geral, as pessoas que têm uma crença religiosa têm um perfil mais saudável, em todos os aspectos da vida dela. Diferentes estudos que nós fizemos aqui no nosso Departamento, por exemplo, até com distúrbios alimentares, mostram que quando a pessoa tem uma prática religiosa, ela tem um risco menor na sua vida em geral. Então, você não pode dividir a sociedade. São divisões artificiais. A sociedade é composta de gente que pesquisa, instituições governamentais que vão trabalhar com a prevenção, de ONGs que estão no seu papel muitas vezes de suprir a carência do Estado. Quanto maior a deficiência do Estado, maior a tendência a surgimento de ONGs porque o Estado não respondeu e elas foram aparecendo. E a Aids tem muito disto. As ONGs surgiram muito em razão da demora da resposta do Estado. Hoje o Programa Nacional de Aids reconhece que boa parte do seu sucesso se dá pela atuação das ONGs. A sociedade civil vai impondo questões extremamente importantes do Programa.

OP – Como a senhora analisa a postura do Governo Lula em relação à questão da Aids. O Programa Nacional de Aids continua no mesmo caminho?

LK – Na época da eleição, o Serra usava muito o Programa de Aids como exemplo. Participo do Programa desde o início dele (95/96). Na época da eleição do Governo Collor, boa parte do pessoal do programa usava o botom do PT. E eu perguntava se eles não tinham problema com aquilo. Eles respondiam que a coordenadora Lair Guerra era muito aberta e permitia a entrada de qualquer pessoa. Então notava que o Programa Nacional de Aids foi construído por pessoas que tinham militância na esquerda brasileira. Então quando o Serra dizia ”isto é um exemplo do meu programa”, o pessoal de esquerda se arrepiava. Acho que o Programa teve sucesso porque ele teve uma visão crítica o tempo todo. Ele errava e logo em seguida abria a discussão sobre o erro e mudava o seu rumo. O Ministério assume vários momentos de erros de avaliação. Há documentos que já li admitindo que o crescimento da Aids entre a população heterossexual e pobre foi resultado da falta de visão e antecipação do Governo de perceber que isto ia acontecer. Esta população comum, geral, brasileira demorou muito para se perceber em risco, que tinha determinados comportamentos que eram de risco. Isto foi uma falha de avaliação. Ficou-se muito tempo debatendo que a Aids estaria somente em alguns grupos específicos.

OP – A imprensa foi um pouco responsável por isto também?

LK – A imprensa sempre tem um papel importante. Quantas vezes a mídia teve um papel importante e benéfico e quantas vezes ela destruiu vidas como naquele episódio da Escola Base.

OP – Pergunto isso porque no início da doença, quando ninguém sabia o que era, ela foi batizada de ”câncer gay” ou ”peste gay”.

LK – A mídia também publica aquilo que está no imaginário. Em parte pode ser culpa dela por não ter tido capacidade de avaliar e em parte ela está divulgando um pensamento que é da época. O importante é que o conhecimento humano está em constante mudança, em constante aperfeiçoamento. Isto é importantíssimo na Aids. Temos que estar sempre alertas para estudarmos tendências para tentarmos nos antecipar aos problemas e não deixar que eles aconteçam para sair correndo depois.

OP – Na sua opinião, o que deixa a Aids tão em evidência nas vidas das pessoas? Existem inúmeras outras doenças que também são crônicas, que também são incuráveis, que também são transmitidas pela via sexual e que não têm o mesmo peso de investimento. O que caracteriza esta epidemia para que ela tenha este peso todo?

LK – Acho que foi uma construção. Primeiro: nenhuma das outras DSTs aparentemente são mortais. A Aids até hoje não tem cura. O primeiro caráter dela foi este de fatalidade. Por mais que a gente tente desmistificar, ainda não temos a cura da Aids. Uma vez o Betinho disse em uma palestra: ”Eu estou olhando para vocês e imaginando que vocês estão olhando para mim e pensando — coitado, ele vai morrer”. E eu estou aqui olhando pra vocês e pensando – ”Coitados, eles também vão morrer”. E muita gente que estava ali, de fato, pode ter morrido antes dele. Acho que o grande problema foi uma doença que mexia com valores, com a sexualidade, e era mortal. A associação deste três componentes foi importante, trouxe à tona questões como, por exemplo, o sangue. Os problemas de contaminação com transfusões ocorriam há muito tempo. E pouca coisa era feita. Com o advento da Aids este desastre veio a público. Até a década de 80 nós fechávamos bancos de sangue de pessoas importantes. E para reabrir eles tinham que ter outro padrão de qualidade. Você abria as geladeiras naquela época (87/88) e via sanduíche de mortadela, coca-cola misturados com sangue. Era um caos. A Aids trouxe isto à tona. A hepatite é gravíssima e já era transmitida pelo sangue e a morte é lenta, crônica e se dá depois de muitos e muitos anos. A Aids não. A pessoa que contraía a Aids em poucos anos morria. Entre a população de hemofílicos, houve certas cidades onde 60% a 70% das pessoas foram contaminadas. A família inteira do Betinho, todos os rapazes que eram hemofílicos morreram.

OP – Voltando a esta última pesquisa, sobre sexualidade da população HSH, o que os primeiros resultados já indicam?

LK – Um dos primeiros dados que chama muita atenção em Fortaleza é o retorno ao comportamento de risco, mesmo de indivíduos de classe social mais alta. Apesar de todo o conhecimento, de todas as condições que eles têm de comprar preservativos, o uso ainda é baixo. Cerca de 45% da população de HSH em Fortaleza, no ano de 2002, tinham comportamento de alto risco, que era o não uso de preservativo nos últimos seis meses em pelo menos uma relação sexual. Outro dado foi mostrar que em cidades do Interior, aparentemente, o comportamento é muito diferente de Fortaleza. Exercer sua homossexualidade em Fortaleza é muito mais fácil que em cidades de menor porte. Mesmo Sobral, que não é tão pequena. É muito mais difícil você se esconder lá do que aqui na Capital. E a impressão que a gente teve é de que o comportamento lá é muito mais escondido. Toda vez que você tenta esconder este comportamento, na hora que ele aparece, ele surge como um comportamento de maior risco. Então o comportamento de risco nas cidades do Interior é mais elevado.

OP – As relações da Aids com o álcool e uso de drogas ficaram aparentes?

LK – Um dos grandes problemas sociais já detectados no mundo inteiro é o álcool. As pessoas ainda não têm dimensão do impacto que o álcool pode ter. Em todos os aspectos. Na violência, o álcool tem disparadamente uma relação e no comportamento sexual também. Existe um questionário que a gente aplicou em 2002 que tenta traçar se aquela pessoa tem uma tendência de desenvolver o alcoolismo ou não. E agora, mais recentemente, surgiram outras leituras. Será que para desenvolver um comportamento sexual de risco é preciso ser alcoólatra? Vamos imaginar. Você vai para uma festa no fim de semana. Toma um porre violento e o que você vai fazer? Provavelmente você não vai sequer lembrar. Provavelmente vai fazer o que você sóbrio não faria. Então, o que a gente tem percebido é isso. A Associação Brasileira de Estudos do Álcool e de outras Drogas (ABEAD) está levantando o que já foi feito com o fumo. E se percebe que o álcool tem impactos sociais muito maiores que o fumo. Entretanto, a propagando da fumo é proibida e a do álcool não. Você tem em horário nobre da televisão a associação do álcool com saúde, com mulheres belíssimas. Este grupo vai iniciar uma campanha que vai envolver o Congresso, a população, a mídia… para suspender a propaganda de álcool.

OP – Partindo para analisar a população em geral e não só de HSH, como a senhora analisa a situação da Aids hoje no Ceará?

LK – Uma das coisas que a gente observou é que o Sudeste, embora tenha um número maior de casos, a epidemia atingiu um patamar estável com tendência a declinar. No Ceará, e no Nordeste em geral, a gente observa que a taxa de crescimento ainda está em plena ascendência. É um epidemia que veio um pouco mais tarde e vem tendo hoje o resultado daquilo do que você já teve tempos atrás no Sudeste. Enquanto você encontra já taxa de crescimento próximo a zero ou negativo no Sudeste, aqui ainda está em subida. Só para se ter uma idéia, a taxa de crescimento da Aids entre mulheres no Nordeste é de 23% nos últimos quatros anos. E nós estamos assistindo de camarote. O que se está de fato fazendo? A Secretaria tenta, mas os recursos são limitados. Hoje não adianta mais ficar jogando folhetos. A idéia é trabalharmos com redes sociais. As pessoas vão se organizar, discutir juntas sua realidade e desconstruir juntas uma série de questões. Desde questões de gênero: como é construído o perfil masculino e feminino na nossa sociedade? O quanto este perfil feminino está mudando? O perfil masculino está mais estável. O menino começa sua atividade sexual em torno dos 15 anos. A menina, poucos anos atrás era 19 anos e foi caindo. Hoje já está próxima a do menino. O resultado é que, na faixa etária dos adolescentes, as mulheres têm taxa mais alta de transmissão do que os homens. Esses são dados extremamente atuais e preocupantes. E como é que isso se explica? As meninas tendem, culturalmente, a se relacionar com homens mais velhos. E, conforme aumenta a idade, a chance de você se contaminar aumenta. Então elas se relacionam com homens que têm mais chances de estarem contaminados. E ao mesmo tempo, a mulher mais jovem tem um risco maior de contrair a doença, pela própria constituição biológica do seu órgão sexual. Então o risco dela é maior e ela está se relacionando com um homem que também tem risco maior de estar infectado. Fizemos juntamente com o GAPA um trabalho de oficinas com adolescentes. E mesmo com este trabalho, uma aluna ficou grávida e outra fez aborto. Eles não usaram preservativos.

OP – A gente pode considerar que se repetem aqui as características da epidemia de juvenização, feminilização e interiorização?

LK – A epidemia se repete, só que de uma forma mais grave e com um crescimento maior do que na região Sudeste hoje. A pobreza, como já se sabe, tem uma forte influência. E o Nordeste é mais pobre. Então, não tenha dúvida de que a situação da Aids aqui vai ser mais grave. No São José, a gente tem trabalhado com a população que tem Aids. E vários deles dizem que depois da Aids se tornaram gente. Que a vida está melhor depois que contraíram Aids. E você se pergunta: como é que pode alguém que está com uma doença fatal dizer que a vida dela melhorou? O que representa isso? O programa de Aids tem uma série de braços importantes, como assistência odontológica, assistência psicológica, trabalhos de resgate de auto-estima. Então, pessoas que não eram nada na sociedade, a partir do momento que passaram a ter Aids, começaram a ter acesso a uma série de serviços que nunca tiveram na vida. Então, de repente, a pessoa vira cidadão por causa da doença. Imagina que tragédia. Isto é um sinal da gravidade social em que o País se encontra.

OP – As pessoas que se envolvem em redes de solidariedade, que passam a assumir publicamente a doença, convivem melhor com a Aids?

LK – Não tenha dúvida. A pessoa passa a perceber em primeiro lugar que ela não está sozinha. Ela tem outras pessoas na mesma situação. Eles se ajudam entre si. Existem funcionários especializados trabalhando nestas redes. Elas passam a perceber uma série de direitos de cidadania que não conheciam. Entre as mulheres, quando elas descobrem que estão doentes, passam a querer ser mães. Um médico desavisado diria: ”Não, você tem Aids, então não pode engravidar”. É obrigação do médico colocar todos os riscos que ela tem e a criança, também. Hoje temos avanços técnicos que reduzem muito as chances de uma criança, filha de mãe soropositiva, nascer com Aids. A mãe tem o direito de lutar por isso. Todo o aparato disponível hoje reduz de 30% a 40% as chances da criança ser infectada. No entanto, as mulheres não estão tendo acesso a este serviço. Um estudo recente mostra que de cada 100 mulheres grávidas que estão positivas, só 47 estão tendo acesso a todo o tratamento preconizado pelo Ministério da Saúde. Isso é um caos. O Ministério lançou agora uma campanha ”Fique Sabendo”. Esta campanha é um estímulo para que a população vá se testar. Para muitas mulheres e homens, não passa pela cabeça a possibilidade de que estão infectados. E a mulher infectada, menos ainda. Porque tende culturalmente a ter parceiros fixos. E ela pensa: – Bom, eu tenho um parceiro fixo, então não vou me contaminar. Esta campanha é para levar ao público geral, principalmente as mulheres, a identificarem precocemente seu estado e, em caso de gravidez, dar início ao tratamento mais cedo, ainda durante o pré-natal.

OP – Algumas ONGs têm criticado esta campanha dizendo que o Governo não vai dar conta desta demanda. Onde as pessoas podem se testar aqui em Fortaleza?

LK – O exame é de graça e está disponível no Laboratório Central e em alguns postos de saúde da cidade. A idéia é de que em pouco tempo todos os postos de saúde também tenham o kit para o exame. O que eu acho absolutamente plausível.

OP – Quais as estimativas de subnotificação da doença? Os laboratórios são obrigados a registrar novos casos?

LK – Não. A notificação de casos positivos e assintomáticos é recomendada, mas não obrigatória. Apenas nas gestantes, sim.

OP – Então quando a gente avalia o quadro epidemiológico de números, você tem que considerar aí uma subnotificação enorme.

LK – Com certeza. Até porque estes números coletados pela Secretaria da Saúde se referem aos dados de pessoas doentes. Na verdade estes números estão retratando uma realidade de 10 ou 15 anos atrás. Mas o Governo está tentando monitorar diferentes populações. Por exemplo, o serviço militar: todo homem é obrigado a passar por ele. Então, uma amostragem desta população é testada e passa por um questionário. E aí você vai acompahando o comportamento sexual destes homens jovens. Outra população é a de gestantes. Hoje, de prática, o ideal é que toda gestante passe por um teste de HIV como é o de sífilis, que já é de rotina. A idéia é que se torne uma rotina, dentro do pré-natal.

Saiba mais

O Programa Nacional de DST e Aids é considerado modelo em países em desenvolvimento pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Confira o site: www.aids.gov.br

O Grupo de Apoio à Prevenção à Aids – Ceará (Gapa-CE) foi fundado em 1989 e funciona na Rua Castro e Silva, 121, sala 308, Centro de Fortaleza. Telefone (85) 253.4159.

A terminologia HSH (homens que fazem sexo com homens) foi criada pelas instituições que trabalham com prevenção às DSTs/Aids e engloba não só os homens que têm orientação homossexual ou bissexual, mas também todos aqueles que têm práticas sexuais com outros homens, mesmo se considerando heterossexuais.

Eymard Mourão Vasconcelos é médico, mestre em Educação e Doutor em Medicina Tropical. Atua como professor do Departamento de Promoção da Saúde da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) – www.ufpb.br

O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, morreu em 1997 em decorrência da Aids. Ele e os dois irmãos, Chico Mário e o cartunista Henfil, eram hemofílicos e foram infectados pelo HIV através de transfusões de sangue. A luta que Betinho empreendeu contra a ”máfia do sangue” não só chamou a atenção da população sobre os riscos que corria ao consumir sangue não testado, como colocou a luta contra a Aids dentro de um contexto social, articulada com a defesa dos direitos humanos.

O site da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead) é www.abead.com.br

Estimativas do Ministério da Saúde indicam que existem hoje, no Brasil, 600 mil pessoas vivendo com o HIV. Destas, 400 mil não sabem da sua condição sorológica. Por este motivo, o Programa Nacional de DST e Aids lançou a campanha ”Fique sabendo”. Maiores detalhes no site: www.aids.gov.br/fique sabendo

Autor:

O Grupo Assistencial SOS VIDA nasceu legalmente em 28 de março de 1998 com o proposito de oferecer apoio e assistência a portadores do vírus HIV/AIDS. Após um ano, Padre Quinha pediu ao fundador que começasse a trabalhar também com Dependência Química. Passados dezesseis anos os atendimentos vão além destas duas patologias, a busca por diversos motivos fez com que a instituição abrisse o leque de atuação – Ir de Encontro com a Necessidade de Quem Nos Procura – que, em sua grande maioria, são pessoas de baixa renda. Os assistidos contam ainda, além dos atendimentos na sede da instituição, com o amparo de profissionais de saúde que atendem gratuitamente em seus consultórios e clínicas.

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