A aids e as Igrejas – Marcelo Barros

A aids e as Igrejas

Marcelo Barros

O vírus do HIV abala a imunidade do organismo, não só das pessoas, mas também das comunidades eclesiais e grupos religiosos. A aids desafia as Igrejas, antes de tudo porque devasta o mundo, de forma geral, ecumênica.

Embora tenha preferência por pobres de países africanos e do Terceiro Mundo, não poupa nenhum grupo religioso. Todas as Igrejas têm perdido para a aids fiéis e pastores. E a aids traz consigo algo ainda mais pesado do que o HIV: joga sobre sua vítima um estigma moral. Apesar de que se multiplicam meios de contágio como instrumentos cirúrgicos, transfusão de sangue e outros, infelizmente, a maioria das pessoas quando ouve dizer que alguém contraiu o vírus, pensa logo em drogas ou promiscuidade sexual. Ora, até hoje, a maioria das Igrejas e religiões tem dificuldade de dialogar sobre assuntos que envolvam a moral sexual. Ministros e pastores proclamam sua solidariedade aos portadores do HIV, mas rejeitam campanhas de prevenção que partem da realidade de uma grande porção da humanidade e distribuem agulhas descartáveis e camisinhas.

Um documento do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) que reúne 340 Igrejas cristãs reconhece: “Muitas Igrejas, com o seu silêncio sobre o assunto da aids são também responsáveis pelo medo que se propagou no mundo mais rapidamente do que o próprio vírus. Algumas Igrejas levarão peranteDeus a responsabilidade terrível de criar obstáculos a uma informação exata do problema. Impedem um debate sincero e livre da questão, principalmente no que diz respeito aos meios de prevenção”. Na ação das Igrejas em relação à aids, a pergunta fundamental é “qual das possíveis linhas de ação expressa melhor o amor do Cristo por todos os afetados?” e não apenas quais ações correspondem melhor à moral que ensinamos. “É possível que não haja ações plenamente satisfatórias ou coerentes com o que desejamos, mas é preciso defender a vida com a urgência com a qual é ameaçada. E é imperativoque a esposta das Igrejas ao problema da aids seja uma resposta ecumênica.”

O primeiro desafio parece ser o diálogo entre pastores de Igrejas e grupos da sociedade civil que se consagram a campanhas de esclarecimento sobre a aids. Como em todo diálogo, é importante que cada parceiro possa pensar e expressar-se livremente. Não há diálogo quando alguém se fecha e posições dogmáticas ou autoritárias.

A aids obriga as sociedades tradicionais a rever ritos e costumes ancestrais como a poligamia, a lei do levirato (quando um homem morre, seu parente mais próximo casa com a viúva), o rito da circuncisão e outros. Não deveria também fazer as Igrejas reverem doutrinas e preceitos morais?

Em sociedades poligâmicas, as mais freqüentes vítimas da infecção são mulheres. Há países em que as mulheres não têm autonomia sobre o próprio corpo. São doadas ou vendidas em casamento pelo pai ou patriarca da tribo a um chefe de clã. Não têm acesso a informações básicas sobre a saúde e os riscos de infecção. Não adianta trabalharmos a questão da aids se não lutarmos por uma verdadeira e total libertação da mulher. Na África, é comum dizerem: “A aids começa pela pobreza. Se não fosse a forte carência econômica e social, a doença não mataria do modo como está matando”. Só uma minoria ínfima de pessoas infectadas tem acesso ao tratamento. Por outro lado, na maior parte do mudo, percebe-se que muitas pessoas são contaminadas por não tomarem os cuidados necessários. Em muitos casos, são vítimas de uma necessidade inconsciente de autopunição e autodestruição que, em outras épocas, tomavam expressões diferentes hoje vão no sentido da infecção. Por isso, não adianta apenas distribui remédios ou ensinar meios preventivos. É necessário um cuidado mais profundo e que abarque todas as dimensões da vida. Muitas Igrejas têm se esforçado para libertar as pessoas infectadas pelo HIV de qualquer julgamento moral ou religioso. Os documentos do Conselho Municipal de Igrejas insistem: “Deus é amor e está presente em todas as formas de amor”. “Todos os seres humanos são imagens de Deus, independentemente de suas inclinações sexuais. Todas as formas de manifestação de amor, se são verdadeiras e profundas, são dignas e podem ajudar as pessoas em seu crescimento espiritual”. (…) “Deus Amor nã castiga ninguém. A vida humana é um mistério e cada comportamento fruto de uma série de fatores como meio social, educação familiar e ambiente afetivo no qual a pessoa se desenvolveu”.

Nas Diretrizes Gerais para a Ação da Igreja Católica no Brasil (de 2003 a 2006), a CNBB coloca como uma de suas atividades para este período, “o serviço de prevenção de HIV e assistência a soropositivos”. “A Igreja assume este serviço e, sem preconceitos, acolhe, acompanha e defende os direitos daqueles e daquelas que foram infectados pelo vírus da aids. Faz também um trabalho de prevenção, pela conscientização dos valores evangélicos, sendo presença misericordiosa e promovendo a vida como bem maior”. Expressão concreta deste trabalho é o movimento Amor Exigente, desenvolvido pela pastoral católica em todo o Brasil.

A aids não é, em si, uma doença, mas a quebra da imunidade orgânica que expõe a pessoa às enfermidades que aparecem. Até hoje, espera-se uma vacina eficaz que imunize o organismo. Talvez, no plano espiritual, algumas Igrejas precisem justamente romper a imunidade que ainda as isolam da comunhão universal do amor.

Autor:

O Grupo Assistencial SOS VIDA nasceu legalmente em 28 de março de 1998 com o proposito de oferecer apoio e assistência a portadores do vírus HIV/AIDS. Após um ano, Padre Quinha pediu ao fundador que começasse a trabalhar também com Dependência Química. Passados dezesseis anos os atendimentos vão além destas duas patologias, a busca por diversos motivos fez com que a instituição abrisse o leque de atuação – Ir de Encontro com a Necessidade de Quem Nos Procura – que, em sua grande maioria, são pessoas de baixa renda. Os assistidos contam ainda, além dos atendimentos na sede da instituição, com o amparo de profissionais de saúde que atendem gratuitamente em seus consultórios e clínicas.

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